terça-feira, 18 de outubro de 2011

A arte de cantar ao desafio

Hoje em dia já ninguém ignora que, para se cantar ao desafio, são indispensáveis determináveis atributos que muito raramente se encontram juntos na mesma pessoa. 

É necessário ter dom de repentista, voz agradável, sentido da medida, presença de espírito, um engenho produtivo instantâneo e agrado nas cantigas. 

Não é, portanto, cantador ao desafio quem quer, mas quem nasce e se prepara para o ser.

Cantar ao desafio provoca um desgaste muito grande. Tal como disse Augusto Tavares, também conhecido por “Augusto Mouta Velha”, que residiu em Arões, Vale de Cambra, quando um cantador entra em acção, “o seu corpo trabalha com quantos órgãos tem”. 

E os cantadores ao desafio trabalham durante três, quatro, cinco ou seis horas, discutindo aprofundadamente assuntos como “o amor e o dinheiro”, “a vida e a morte”, “a água e o fogo”, “a guerra e a paz”, “a fé, a esperança e a caridade”, “a letra e a ideia”, “o artista e o lavrador”, “a noite e o dia”, “a indústria e o comércio”, “a verdade e a mentira”, “a pressa e o vagar”, “a saúde e a doença” e muitos outros. Cantar ao desafio é uma arte muito bela, uma arte que todos nós devemos respeitar, apoiar e incentivar. 

Em S. João da Madeira e arredores, pelo menos nos últimos 150 anos, sempre existiram bons cantadores e boas cantadeiras ao desafio, muitos dos quais, lamentavelmente, partiram para o Além sem sentirem a alegria de verem publicamente reconhecido o seu mérito. 

Onde os cantadores ao desafio nunca faltavam era nas Rifas, que se faziam nas proximidades das tabernas, principalmente nas tardes de domingos e feriados. 
À beira da lota do “Luís da Viúva”, no lugar do Barroco, cantaram o Marques Sardinha e a Maria Barbuda. 
No largo junto à taberna da “Ti Fina”, em Carquejido, cantaram o António Gadanho e o Teixeira de Ovar. 
Na Praça Luís Ribeiro, antigo lugar das Vendas, onde também houve tabernas, cantaram os mais afamados cantadores de S. João da Madeira e de outros concelhos do Centro e do Norte de Portugal. 
Em Arrifana, junto à tasca da “Maria Albina” acima da Feira dos Quatro, cantaram a Deolinda do Couto e o António Gadanho.

(Dados do livro 'Memórias de Tempos Idos', de autoria de Levi Moreira da Costa)

domingo, 9 de outubro de 2011

Uma fotografia importante...

Valdemar Alves da Silva, de S. João da Madeira, e António Caixeiro, de Oliveira de Azeméis, a cantar ao desafio em S. João da Madeira.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mais fotografias...


Valdemar Alves da Silva, de S. João da Madeira, e Manuel Abraão, de Avanca, a cantar em S. João da Madeira, acompanhados à concertina, viola e violão.


Valdemar Alves da Silva e Manuel Albraão a cantar em Loureiro, Oliveira de Azeméis, em 08 de Junho de 1996, no decorrer da merecida Homenagem a Margarida Reis, antiga cantadeira ao desafio que viveu naquela freguesia.

Pormenor da Homenagem aos Cantadores ao Desafio de S. João da Madeira,  realizada, por minha iniciativa, no dia 2 de Julho de 1989,  na Praça Luís Ribeiro. Na fotografia vemos a 'Ti Micas do Pereira' a cantar com o seu filho, 'Américo Torto’.  Vemos, ainda, Valdemar Alves da Silva,  Artur Marques, 'Albino Branco', os tocadores e outras pessoas.

Maria Celeste, de Ponte da Barca, e José Cunha, de Vila Verde.  Actuaram em S. João da Madeira a meu convite.

Valdemar Alves da Silva e Manuel Abraão a cantar num Convívio do programa 'Saber do Povo', no Santuário de Nossa Senhora da Saúde da Serra, em Castelões, Vale de Cambra.

Margarida Reis e Marques Sardinha a cantar a caminho da Romaria de S. Paio da Torreira, a convite do Pintor Malhoa.

Carvalho da Cucana.

Sargaceira, do Minho.

Jorge Martins, de Guimarães.

Adília Ribeiro, de Arouca.

Joaquim Gonçalves, de Braga.

José Cunha, de Vila Verde.

Conceição, do Minho.

Augusto Moreira e Irene Passos.

Loureiro, de Barcelos.


Adeus filhos invisíveis
Dos ventres matrimoniais
Antes que eu vos diga adeus
Vós a mim não me escutais
(Deolinda do Couto)


Tenho em casa cinco filhos
Quatro já sabem rezar
O mais novo tem sete meses
Indó não pude ensinar
(Albino Nicolau)


O Zé Marques diz que são
Grandes as barbas que tenho
Que faria se ele visse
As barbas do meu engenho
(Maria Barbuda)


Já dormi na tua cama
Já mijei no teu penico
Já tirei os três vinténs
Nem por isso fiquei rico
(Marques Sardinha)